Sobre porque o movimento bissexual é necessário

Ultimamente tenho percebido com mais precisão como somos afetades pela falta não só de movimento bissexual no Brasil como também falta de material em portugês brasileiro sobre o assunto.

Digo, óbvio que estamos aqui o que significa que o movimento existe e que produzimos material, o que significa que algo de material existe mas não é suficiente.

A pouca informação e difusão ocasionadas pelo isolamento nesse mar internértico das poucas fontes sobre isso é um dos pontos. A busca do Google, porta de entrada para muitas pessoas que querem saber algo não beneficiam vozes que são muito silenciadas, e aqui não estou falando só de bis e pansexuais ou só de diversidade sexual e sim de uma série de minorias.

Pra ter mais não posso fazer muito além de dar apoio moral e divulgar, mas na parte de criar material em português brasileiro, para que esteja a mão de imprensa, pares no movimento e principalmente, companheres pan e bissexuais, posso. Podemos.

É com essa ideia em mente que escrevo agora.

 

O movimento bissexual precisa de informação e para ter informação precisamos do movimento bissexual, é um ciclo onde nos retro-alimentamos e com isso podemos construir, problematizar e alcançar mais pessoas que precisam da informação, querem entrar na discussão e vão se beneficiar dela (diretamente bis, mas toda a sociedade termina se beneficiando).

Como disse, precisamos disso em português porque tudo isso tem e tem bastante, mas majoritariamente em inglês, muito em espanhol e em diversos outros idiomas se encontra gente bi e escrevendo e produzindo conhecimento. Só que estamos no Brasil e ninguém aqui é obrigade a saber outros idiomas e se sabe não são obrigados a se fechar nisso e terminar não socializando o que aprendeu.

 

Essas são as razões mais gerais pelas quais precisamos do movimento, derivada de outras mais específicas e urgentes que seriam a bifobia, o apagamento e silenciamento bissexual com todas as consequências disso para nossas vidas.

A exclusão tanto do mundo hétero com o qual nos identificamos quando somo lidos como héteros quanto do mundo LGBT tem consequências diretas para nossa saúde, por exemplo. Vários estudos mostram como bissexuais são especialmente vulneráveis (mais sobre isso abaixo).

O apagamento se dá de várias formas, como retratando pessoas bissexuais como homossexuais, não falando sobre a nossa orientação quando se fala de outras, com a negação da própria existência da nossa orientação, negação de que o movimento é necessário etc.

Já o que chamo de silenciamento é, ao não apagar exatamente, dar entidade à bissexualidade só que a partir de discurso de pessoas não bissexuais que ou tem um viés bifóbico ou que não conhece nada sobre o movimento e está, no melhor dos casos, especulando. E quando em algum evento LGBT ou mesmo em conversas, informais ou dentro das instituições como escola, por exemplo, a pessoa bissexual que tenta falar por ela mesma e por nós é ignorada e a palavra final é dada por alguma pessoa monossexual. Isso é silenciar a única voz relevante quando o assunto é pan/bissexualidade, a do próprio pan ou bi. Um caso de silenciamento por especulação que no entanto não tinha motivação bifóbica (e sim uma reação à transfobia) mas que mesmo assim acabava fazendo o desserviço de informar mal uma população já mal e pouco informada foi relatado no post anterior, onde conto o processo de corrigir, depois de muita conversa na qual indiretamente entraram muitas pessoas bis, uma definição equivocada de bissexualidade.

 

Como se tudo isso não bastasse, ainda tem a bifobia em si. Embora o apagamento (especialmente monossexista) o silenciamento estejam de alguma forma dentro da bifobia, tem uma parte que é simplesmente agressão pura. Hipersexualização de mulher bi, exclusão do movimento LG_T, mal trato em todas as esferas instituicionais (trabalho, saúde, escola etc), mal trato em relações afetivas, preconceito de hétero, preconceito de homo, insultos de todo tipo, confundir com zoófilo (no caso de pansexuais), insegurança projetada (sentir que vai ser trocade e agredir com isso), nos fazer de bode expiatório (como o mito da nossa infedelidade inerente que apaga a infedelidade monossexual), descrença e por aí vai… parece que ser bi desperta raiva da gente, e não é da mesma maneira que ser homo o faz.

 

Especificamente sobre saúde, saiu uns dias atrás e inundou a internet o resultado de uma pesquisa estadunidense sobre orientação sexual e saúde da população estadunidense adulta feita pelo CDC, Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA . Parte do barulho que a pesquisa (que foi feita em 2013 e publicada agora em julho) fez é por conta do fato de ser a primeira vez que incluem orientação bissexual entre as perguntas, o que significa que não são números novos para comparar a velhos, são simplesmente novos. E sim, os dados são bissexuais são relevantes.

Antes de passar aos resultados, cabe ressaltar que a proporção de pessoas adultas não hétero foi de 2,3%, número parecido a outros estudos recentes pelo mundo com o método de perguntar pela auto-identificação (nesse caso não livre e sim com uma lista pré definida) e que as pesquisas que o fazem por escalas (Kinsey e variantes) perguntando por experiências costumam trazer números maiores, beirando o dobro. Já este site afirma que a população LGBT estadunidense (aqui inclui trans na pesquisa CDC não) tende a se mostrar em pesquisa ao redor do 3,4%. Isso sobre LGB em geral, sobre bissexuais especificamente, segundo o CDC 0,7% se identificaram como bissexuais, menos que os monossexuais da pesquisa, novamente, quando o método é por escala, costuma ser mais. Isso tudo somado ao fato de que como sabemos, nem toda pessoa LGBT se auto-identifica corretamente respondendo a uma pesquisa, um sesgo presente sempre mas é bom comentar.

Especificamente sobre bissexuais, segundo o CDC temos resultados piores em ansiedade, consumo de tabaco, álcool e cobertura de saúde. Várias outras pesquisas mostram que os índices de ideação e tentativa de suicídio é maior também entre bissexuais em comparação a homossexuais (algo sobre isso aqui, em inglês). Deixo o link para o documento original do CDC, em inglês.

Os estudos que mostram as diferenças entre a saúde de bissexuais e homossexuais são unânimes ao referirse à causa: a exclusão de bissexuais tanto do meio hétero quanto homo e a invisibização bi, junto com suas consequências.

 

Agora a próxima vez que alguém disser que bissexuais não precisam de movimento, representação e voz porque não sofrem homofobia e/ou porque desfrutam do privilégio hétero (argumento parecido ao de que trans com passabilidade desfruta do privilégio cis), você mostra isso aqui.

 

E se disserem que não existe o movimento no Brasil…. bom… o que será essas pessoas estão fazendo na Avenida Paulista?

caminhada 203

Comentários

2 thoughts on “Sobre porque o movimento bissexual é necessário”

  1. Sim precisamos de visibilidade e principalmente de conteúdo brasileiro na minha opinião a maior barreira não é a língua e sim a cultura uma experiência de um bissexual nos EUA que leva um estilo de vida completamente diferente de um menino do interior de MG não serve pra muita coisa quando agente vai comparar com a realidade brasileira,essas referências distantes de culturas diferentes de pessoas que vivem numa sociedade com outros valores não conseguimos transportar pra nossa realidade, será que um atendente de telemarketing vai sofrer tanto preconceito quanto um engenheiro? Da mesma forma que um europeu não sofre tanto preconceito quanto um brasileiro

    1. Pois é, Alan. Isso tá sempre na minha cabeça e nao citei nao sei porque, esses obvios que a gente acha que já falou. De qualquer forma quero relatar em outro post isso de produçao de conhecimento sobre bissexuais brasileiros, pesquisas, artigos academicos etc… E isso é incentivado pela presença do movimento, IMO, que pode apoiar e criar investigaçoes na área.

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