Bissexualidade não bissexual ou “como identidade e prática não são a mesma coisa – II parte”

A atriz Michelle Rodrigues disse que vai pros dois lados. É algo simples e não deveria ter todo o mistério e cagação de regra que tem, mas né, ainda estamos na era das trevas com relação à sexualidade e ainda é difícil pra maioria das pessoas entenderem que identificar-se com certa orientação sexual não te obriga a namorar/beijar/transar com o(s) gênero(s) em questão. A inversa também é válida: namorar/beijar/transar de um ou mais gêneros não te obriga a identificar-se com o rótulo correspondente. Se não concordamos nesse ponto básico… vai ver se eu to na esquina bom, vamos falar sobre isso até que se entenda. O caso, embora não tenha nenhuma ocorrência da palavra bissexual, foI entendido pela mídia (geral ou especificamente LGBT) como declaração de bissexualidade, com dezenas de manchetes sobre ela com “se assume bissexual” “assume bissexualidade” “sai do armário como bissexual”.

Embora Michelle nunca tenha dito a palavra bissexual, já afirmou que sim gosta de homem e de mulher e de que não é lésbica. Saiu (e isso é totalmente problema dela) com homem e mulher de maneira pública, o que alivia toda a mídia e a população bifóbica que acha que a pessoa tem que praticar bissexualidade de maneira proporcional e quase simultânea para não perder a carteirinha bi. Só que não disse que era bissexual e ninguém perguntou, mesmo em entrevistas posteriores, se ela se identificava assim, simplesmente assumem. Muita gente pode argumentar que “ser bi” – no sentido de gostar de mais de um gênero – e não dizer que é bi é nos apagar. Sim, ok, pode ser, mas de quem é a culpa? Alguém tem obrigação de se identificar assim? Não me parece justo a gente sair pressionando essas pessoas que sentem atração por mais de um gênero como se elas fossem a fonte de bifobia no mundo. Se a gente souber que a pessoa se identifica como bi na sua vida pessoal mas não quer fazer o mesmo na vida pública, apesar de assumir publicamente a atração bi, isso passa a ser discutível, mas a pessoa continua não sendo obrigada a nada.

O ponto aqui é que embora a bifobia e o apagamento e silenciamento bissexual possam estar por trás da decisão de não identificar-se publicamente como bissexual, se apressar em culpar a pessoa em questão está longe de ser algo que resolve o problema. Problematizar, comentar, perguntar são todas possibilidades mais saudáveis e produtivas, além de não pressupor um policiamento da vida sexual alheia. Talvez seja mais produtivo dialogar com a mídia para entender porque pressupõe coisas e explicar o erro que cometem ao chamar de bi tudo que sai do que eles entendem por homo ou hétero, passando por cima do fato de que essas identidades deveriam ser assumidas pela pessoa e não impostas desde fora.

Estão muito confortáveis em dizer que a Michelle é bissexual e aí está o ponto da coisa, a pressa em pressupor. Também se apressam em dizer em ocasiões que a modelo Cara Delevingne é bissexual e em ocasiões que é lésbica, normalmente agregando um abertamente. Sair com alguém abertamente não é assumir uma identidade abertamente e Cara inclusive disse que não se define nem como lésbica nem como bissexual.

Em poucas palavras: não tomem conclusões apressadas e não caguem regra na sexualidade alheia. Nossa liberdade de ser agradece.

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