Bonde Bi na Caminhada Lésbica e Bissexual de 2017 e um relato sobre a participação do Bi-Sides nas Caminhadas

Neste sábado, 17 de junho, o Bi-Sides esteve mais uma vez na Caminhada Lésbica e Bissexual de São Paulo. A Caminhada é um espaço de resistência e luta de mulheres que amam mulheres, e é onde o Bi-Sides foi divulgado pela primeira vez, em 2010, quando sua fundadora Daniela Furtado subiu em um carro de som na concentração do evento para anunciar a criação do site do Bi-Sides (momento registrado nesse vídeo)

O Bi-Sides sempre procurou estar presente na Caminhada, marcando a presença das mulheres bissexuais.

Em 2015 participamos da organização da Caminhada, que pela primeira vez teve um Grupo de Trabalho Bissexual. Foi um ano no qual houve um esforço grande de inclusão de grupos que não se sentiram representados no ano anterior, por isso havia um GT Bi, um GT Trans e um GT das Mulheres Negras. Cada um deles realizou atividades no mês da Caminhada, e o GT Bissexual promoveu uma roda de conversa, mediada por Jussara Oliveira, do Bi-Sides e da organização do site Blogueiras Feministas, e de Hailey Kaas, militante negra e bissexual, integrante do coletivo Transfeminismo e criadora do site Transfeminismo, para falar sobre bissexualidade e bifobia. Apesar de ter sido divulgado com apenas uma semana de antecedência, o evento teve cerca de 50 pessoas, incluindo muitas mulheres lésbicas. Foi um espaço muito rico de debate, no qual muitas lésbicas tiveram contato pela primeira vez com as vivências bissexuais.

Na Caminhada daquele ano a integrante do Bi-Sides Cacau Rocha (quem não conhece o trabalho dela, aliás, corra pra conhecer essa mina que representa no funk e na poesia: https://www.facebook.com/cacaurochamc/ ) esteve no microfone do carro de som durante a Caminhada, junto com a companheira Natasha Avital (essa que vos escreve). Foi emocionante estar ali, com a bandeira bi pintada no rosto, ao lado de uma companheira que usava uma camiseta com os dizeres EU SOU BISSEXUAL e pela primeira vez se sentir representada naquela Caminhada.

Em 2016 o GT Bissexual organizou uma roda de conversa mediada por 03 integrantes do Bi-Sides (Cacau Rocha, Jussara Oliveira e Natasha Avital) e por Sueli Feliziani, feminista negra, blogueira, colunista da Revista Geni. Desta vez a roda foi exclusiva para bissexuais, para que fosse um ambiente seguro pra falarmos de assuntos sobre os quais muitas vezes não nos sentimos à vontade para discutir em grupos mistos.

Esse ano organizamos uma oficina de cartazes na concentração, realizamos uma panfletagem a respeito do coletivo e andamos em bloco ostentando nossa mensagem e nossa bandeira. Houve momentos muito emocionantes de encontro com outras mulheres, aquela alegria no coração de ver nossas cores em um bottom, bandeira ou pintado no rosto de outra companheira, de trocar ideias, contatos, alimentar essa rede entre pessoas tão plurais e ao mesmo tempo com tantas experiências de vida em comum.

Ao chegar no encerramento, uma tristeza: uma moça da organização me pergunta onde eu estava na concentração, pois chamaram as bissexuais pra falar no microfone e nenhuma apareceu. Isso me deixou pra baixo. Eu e as minas do Bonde Bi não escutamos o chamado (estávamos panfletando e esse ano não havia carro de som, apenas uma caixa de som, o que tornou o volume bem menor….aliás, PARABÉNS pras minas do organizativo, que mesmo sem um real de Prefeitura ou Estado, e com um grupo bem menor na organização esse ano do que no ano anterior, conseguiram fazer uma Caminhada linda, com uma programação bem rica na semana anterior, que incluiu rodas de conversa, futebol, samba, e não só uma mas DUAS festas, além de um encerramento com a presença de Convicção Negra, Obirin Trio e Banda Clandestinas. MÁXIMO RESPEITO)

Então houve a questão do volume do som não ser tão alto, mas será que dentre quem conseguiu ouvir o chamado não tinha bi?! Nós que estávamos no bonde bi na concentração éramos as únicas bissexuais ali? Tenho certeza que não, tanto é que encontramos várias outras durante a Caminhada. Então repito: será que dentre quem conseguiu ouvir o chamado não tinha bi?! Ou nenhuma se sentiu à vontade pra falar enquanto bissexual, pois é comum que mesmo em espaços supostamente “bi e lésbicos” ou “LGBT” tenhamos a sensação de que estamos “invadindo”, de que não somos 100% bem-vindas, de que aquele espaço não é nosso?

Infelizmente muitas pessoas realmente agem como se não tivéssemos o direito de estar ali, como as lésbicas que, ao ouvir o tradicional grito bissexual e feminista “Eu beijo homem, beijo mulher, tenho o direito de beijar quem eu quiser!” gritavam por cima “Odeio homem, beijo mulher, beijo mulher, beijo mulher!” Cena que aliás se repete em várias manifestações feministas, em uma demonstração de violência simbólica e de silenciamento de uma pauta urgente das mulheres bissexuais e do feminismo como um todo. Afinal, quantas de nós não sofremos coerção e violência sexual, agressões verbais, psicológicas e físicas, violência institucional, por beijarmos tanto homem como mulher?

Mas apesar disso tudo, há momentos que fazem tudo valer a pena, como aquele em que, ainda durante a concentração, me deparei com uma moça que estava sentada no meio-fio, usando um bottom com a bandeira bi. Entreguei um panfleto pra ela e descobri que saiu do armário há um mês (e a mãe não reagiu nada bem), estava ali sozinha, mas sentiu que precisava estar naquele espaço. A chamei pra compor o bonde bi conosco e, quando falei que estávamos procurando gente pra contribuir com esse site, ela se animou bastante, pois voltou a escrever recentemente. E é assim que se constrói nossa militância, nossas redes de socialização, de cuidado. Seguimos na luta pelo direito de ser respeitadas beijando quem a gente quiser. E aguardem posts da Mayara por aqui =]

Se você tiver mais fotos desse momento (ou de vc e azamiga em bonde bi na Caminhada) manda pra nós que a gente publica com o maior prazer.

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