Como e por que incluir bissexuais na linguagem?

Publicado originalmente no Medium , por Nanda Rossi, em 21/06/2017.

Quem não é hetero é o quê? Me responda a essa pergunta. Aposto que você pensou “gay”, ou talvez até “lésbica”. Se não pensou, ou você se importa com outras identidades ou possui uma delas. Agradeço. Tenho certeza que a maioria não pensou em bissexuais, e muito menos em outras identidades como pansexuais, por exemplo.

Hoje vou falar do apagamento bissexual na linguagem.

Somos um grupo de pessoas que sofre um apagamento constante e profundo, em vários âmbitos da sociedade, e um dos modos mais comuns de nos apagar é através das palavras. Não há iniciativa de incluir bissexuais na linguagem porque nós não estamos presentes nas cabeças como um primeiro pensamento quando o assunto é sexualidade. É um tema que fica lá trás, se é que existe em certas cabeças. Também não somos citados por acharem que o termo “homofobia” nos contempla, mas somos uma sexualidade à parte com opressões também à parte.

Então, por não pensarmos automaticamente na bissexualidade, devemos treinar o cérebro para que ele passe a pensar nela ao falarmos ou escrevermos. Em tempos de se buscar uma linguagem inclusiva, por que não tentar também incluir bissexuais? Você consegue imaginar como uma pessoa bissexual se sente quando lê “no Dia Internacional contra a LGBTfobia a luta é contra a lesbofobia, a homofobia e a transfobia”? Um dia que deveria ser de luta e de orgulho, vira mais um episódio de apagamento pra gente. Todo ano a gente sabe, virou quase uma piada. Pena que não é piada, pois somos apagados diariamente, por páginas LGBT, por órgãos públicos, por amigos, pelas políticas, pela sociedade.

Só existimos pra gente. Praticamente todo dia acontece: estou numa página que curto, lendo os posts, e me deparo com apagamento bissexual. E não adianta só evitar lugares que costumam apagar bissexuais. Usar a internet normalmente é ver apagamento bissexual sempre. Viver também. As pessoas bissexuais sofrem principalmente em silêncio. A gente quer sumir um pouquinho toda vez que alguém usa a dicotomia hétero X homo como única possibilidade. Quantas vezes nosso rolê é estragado por comentários bifóbicos e nós simplesmente nos fechamos em nós mesmos e morremos mais um pouquinho por dentro? Falar nem sempre é uma opção, você vai ser chamado de doido se ficar apontando algo que nem existe na cabeça das pessoas. Elas usam óculos com uma visão binária da sexualidade, não cabe a gente ali. Só que a gente enxerga a gente o tempo inteiro. A gente é “aquilo que não existe” e tá sendo apagado, e não deixamos de ver isso acontecendo hora nenhuma. Ninguém vê, o rolê continua. Você vai embora e toma mais um banho agressivo. Vai que você consegue se apagar também?

Nós existimos e estamos em grande sofrimento mental. Estamos sendo expulsos de casa e da comunidade LGBT. Nenhum dos lados nos aceita. Escapamos do binarismo, fluímos, somos uma terceira coisa e não uma mescla de duas. Já que só existimos entre nós, permanecemos unidos. E unidos não vamos pra casa em silêncio.
Então, incluam bissexuais na linguagem, pra começo de conversa.

Aqui vão algumas dicas:

Evite dicotomias e binarismos (sexuais ou de gênero): não existe só hetero e homo no mundo, e também não existe só homem e mulher. Pessoas bissexuais existem, pessoas não-binárias existem, e podemos nos atrair por e/ou ser uma delas.
Se seu objetivo é falar da comunidade LGBT, tente usar a sigla. Se for falar de cada palavra da sigla, não cometa aquele erro de todo dia: “Ops, esqueci uma letra!”. E adivinha qual foi?
Se esquecer a gente, corrija assim que possível. Também seria bacana pedir desculpas, sempre com educação e bom senso.
Não use os termos “casal de lésbicas” ou “casal de gays” caso não saiba a sexualidade das pessoas envolvidas. Elas podem ser bissexuais.
Algumas pessoas bissexuais (como eu) não gostam nem dos termos “casal ou beijo gay/lésbico/hetero”, visto que não concordam com práticas receberem o nome de sexualidades e por os nomes de algumas sexualidades serem escolhidos como denominação em detrimento do nosso, como se fossem mais importantes.
Tente incluir outras identidades, se seu conteúdo for falar de pessoas não cisgêneras e não heterossexuais em geral. Não custa nada e outras comunidades além da nossa, como a das pessoas assexuais ou pansexuais agradecem.

Eu poderia elencar várias outras dicas, mas a principal é: ouça pessoas bissexuais. Pergunte. E tenha humildade de assumir os erros. Por hoje é só, pessoal. E de onde veio esse, vem mais por aí!

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