“Vou levar isso para o meu túmulo”: Porque homens bi ainda têm medo de se assumirem.

Tradução de Ava Adore, publicada no Medium, do texto publicado no site ThinkProgress, escrito por Casey Quinlan.

Agora que o casamento entre pessoas do mesmo gênero é legal em todo o país, e até mesmo grandes corporações estão fazendo declarações em apoio as pessoas LGBTQ e contra leis discriminatórias, pode parecer que a maioria das barreiras para que pessoas LGBTQ vivam vidas completas, com os mesmos direitos que pessoas heterossexuais e cisgêneras, se foram. Mas isso varia muito de indivíduo para indivíduo — assim como para cada letra representada na sigla LGBTQ.

Pessoas bissexuais, por exemplo, continuam a enfrentar estigmas vindos tanto da comunidade heterossexual quanto da LGBTQ, que os priva de se sentirem confortáveis ao revelarem sua orientação sexual. De acordo com a [pesquisa americana] Pew Research Poll, de 2013, apenas 28% das pessoas bissexuais pesquisadas — sendo a maioria delas mulheres — disseram que se assumiram para todas ou para a maioria das pessoas que são importantes em suas vidas, em comparação com 77% dos homens gays e 71% das lésbicas.

Um estudo liberado em junho, realizado por pesquisadores da University’s Mailman School of Public Health, observou mais de perto um grupo muito específico de pessoas bissexuais que se encaixam nessa categoria: homens bi, casados ou em namoros com mulheres, que não se assumiram como bissexuais para a maioria das pessoas presentes em suas vidas.

Muitos homens participantes do estudo da Columbia University disseram estar preocupados com o estigma que poderão encontrar após se assumirem. Isso faz sentido, dado a pesquisa precedente sobre o estigma que enfrentam pessoas bissexuais e homens bi especificamente. Os homens heterossexuais são três vezes mais propensos a pensar que a bissexualidade não é uma orientação sexual legítima, de acordo com um estudo de 2013 realizado pela University of Pittsburgh Graduate School of Public Health. Esse mesmo estudo descobriu que mulheres heterossexuais, homens gays e mulheres lésbicas também mantém visões negativas, denominando pessoas bissexuais como “confusas” e “experimentais”. Os pesquisadores perceberam que os homens bissexuais foram particularmente afetados por esses pontos de vista.

Os 203 residentes da cidade de New York que foram pesquisados para o novo estudo não são necessariamente representantes de toda a população de homens bi, de acordo com Eric Schrimshaw, professor de ciências sociomédicas associado à Columbia University, que esteve envolvido na pesquisa. Mas as descobertas ajudam a iluminar algumas das razões de os homens bissexuais não revelarem sua sexualidade.

Pesquisas anteriores, sobre assumir ou não a sexualidade, tendiam a colocar homens gays e bissexuais juntos, principalmente por estarem focadas no HIV, disse Scrimshaw. E elas não investigaram exatamente o porquê de homens bi se sentirem hesitantes em assumir sua sexualidade.

Os homens que participaram do estudo de Schrimshaw forneceram mais compreensão neste ponto. Eles disseram sentir que suas esposas e namoradas poderiam ter reações extremamente negativas à sua saída do armário, que suspeitavam que seus amigos se comportariam de maneira diferente ao redor deles ou terminariam a amizade e se preocupavam que seus familiares se distanciassem ou os rejeitasse completamente. Muitos dos homens bissexuais entrevistados também expressaram uma preocupação com serem simplesmente considerados gays e sua atração por mulheres ser ignorada.

“Eu nunca contaria para ninguém. Eu vou levar isso para o meu túmulo”, disse um dos participantes.

Embora alguns homens tenham mencionado que seus amigos do gênero masculino faziam comentários homofóbicos, este grupo de homens bissexuais disse que seria mais provável que se sentissem confortáveis contando para um amigo sobre sua orientação sexual do que para suas esposas ou namoradas. 27% dos homens disseram que já contaram sobre sua sexualidade para seus melhores amigos do gênero masculino.

Schrimshaw assinalou que isto é provavelmente porque homens bi sentem que tem menos a perder ao revelarem sua sexualidade para seus amigos. Perder uma amizade pode trazer muita dor, é claro, mas isso não seria tão devastador quanto ser rejeitado por um familiar ou terminar com a namorada. Homens bi também disseram que procuram evitar a possibilidade de suas companheiras do gênero feminino usarem sua orientação sexual como uma “arma” para lhes “dar o troco”.

“Se a namorada terminar com ele as pessoas perguntarão: ‘Oh, por quê?’”

Além disso, assumir sua sexualidade para uma parceira pode trazer o risco de que a notícia sobre isso seja espalhada para mais pessoas em seu círculo de convivência. “Se a namorada terminar com ele as pessoas perguntarão: ‘Oh, por quê?’ e talvez ela diga para todas as suas amigas e amigos em comum porque ela terminou com ele. Então isso tem esse potencial, de fazer o gato sair do saco [ou seja, de fazer o bi sair do armário] ou para se tornar um problema muito maior do que perder um amigo”, disse Schrimshaw.

Apesar do foco de pesquisas anteriores em homens negros e latinos como mais propensos a não revelarem a sua sexualidade ou a experimentarem mais estigma em suas comunidades, isso não foi o que os pesquisadores encontraram nesse estudo em particular. Homens de todas as etnias vindos de culturas tradicionais e conservadoras, bem como de culturas religiosas, estavam particularmente preocupados com o estigma.

“Tivemos um ítalo-americano do Brooklyn falando sobre a religião católica e sua vizinhança ítalo-americana serem completamente homofóbicas e que, portanto, ele não foi capaz de se assumir para seus amigos e familiares… Tivemos um judeu ortodoxo no estudo falando sobre como isso também não é aceitável em sua comunidade, então, além dos homens negros e hispânicos, estamos vendo isso acontecer com todos os tipos de homens, incluindo homens brancos e asiáticos”, disse Schrimshaw. “Homens conectam essas reações estigmatizantes e a antecipação de reações estigmatizantes ao fato deles serem de uma religião ou cultura em particular, então isso é um fator extra que facilita essas reações negativas”.

Alguns homens citaram experiências em que testemunharam homens bi ou gay sendo julgados por sua sexualidade, o que reforçou a decisão de permanecer no armário. Um homem por volta dos 40 anos considerou contar para sua namorada sobre sua sexualidade. “Eu pensei, se houvesse alguém para quem eu pudesse contar, esse alguém seria ela”, ele disse. Mas depois de presenciar sua reação ao marido de uma amiga assumindo ser gay, ele decidiu que jamais poderia contar para ela. Um participante latino americano disse que quando seu primo assumiu ser gay ou bi, sua família o espancou e o repudiou.

Estas descobertas contrastam com o estereótipo de que homens bissexuais não se assumem por estarem confusos em relação a sua sexualidade. Ao invés disso, esses homens usaram o armário como um projeto para se protegerem dessas reações negativas.

Os pesquisadores concluíram que suas descobertas demonstraram a necessidade de campanhas públicas de educação para dissipar mitos sobre a bissexualidade masculina — como a presunção de que homens bissexuais são na verdade gays, de que eles devem ter HIV, e de que todos os homens bissexuais são não-monogâmicos.

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