Nem hétero nem homo nem mesmo bissexual o suficiente – os desafios de vivenciar uma sexualidade invisibilizada

O primeiro desafio de todos é convencer os outros (e muitas vezes a si mesmo) de que bissexualidade existe sim. Que o que você sente e vivencia não é fruto de alguma doença mental, de trauma de infância, de confusão ou indecisão, de desvio de caráter, de algum fetiche ou mesmo de sei lá, alguma trama de ficção científica.

Vejo que não é a toa que a militância bissexual se vale de tantos memes, trocadilhos e mesmo sarcasmo para rebater tamanho absurdo. Como a gente convence alguém de que existimos sim (sem cair numa crise existencial sobre a vida, o universo e tudo mais…)?

Passada a barreira da comprovação da existência vem o desafio de convencer os outros que você é bissexual o suficiente para se considerar como tal. Não é a toa que muitos evitam a tal palavrinha com “B”, às vezes é mais fácil arranjar alguma citação filosófica complexa que dê algum significado mais etéreo e simbólico à nossa vivência do que assumir que podemos ter uma identidade só nossa.

  • Eu gosto de pessoas..
  • Ah é complicado…
  • Para que me limitar?
  • Para quê “rótulos”?
  • Mas a essência humana vai para além disso do gênero/sexo…

Às vezes esse tipo de afirmação nos poupa de um certo interrogatório, mas nem sempre. Como nossa sexualidade é invisibilizada, esotificada, fetichizada e objetificada muitas pessoas (independente da sua orientação sexual) acabam se sentindo no direito de duvidar sobre o nosso conhecimento sobre a nossa própria sexualidade. Bem e é daí que podem vir os mais absurdos questionamentos:

  • Mas e com quantas pessoas do mesmo sexo você já transou?
  • E no último mês?
  • Mas rolou (coloque aqui alguma prática sexual específica)?
  • Se não rolou (a prática acima) como você pode dizer que gosta disso de verdade?
  • Mas você está namorando, como você pode ser bi?
  • Mas se você não ficou com alguém do mesmo sexo/do sexo oposto como você pode ter certeza?
  • E você já fez menáge?
  • Ah você só está fazendo isso para (coloque aqui qualquer situação absurda como chamar atenção/se vingar/provocar alguém, etc)
  • E você acha que conseguiria se relacionar com alguém sem sentir falta do outro gênero?

E assim por diante…

Bem e quando não estão tentando duvidar da sua bissexualidade das duas uma: ou tentam te cooptar para “um dos lados” (homo ou heterossexual) ou te mandar para o outro independente do que você pense sobre o assunto. Ou mesmo a gente acaba se cobrando de se encaixar melhor em um dos dois, os em ambos e conscientemente (ou não) acaba sofrendo por nunca ter um espaço pra chamar de seu. Essa cobrança pode vir de muitas formas: na maneira de se vestir, nas gírias, nas referências culturais (memes, artistas, filmes, séries, etc.), em frequentar determinados espaços, andar com determinadas pessoas, e até em detalhes como corte de cabelo (já ouvi mais de uma vez que chanel e sidecut eram coisas de bissexuais). Lembrando ainda o quanto a maioria dos espaços (hétero ou homo) mais “badalados” são ainda dedicados a brancos, jovens, elitizados, e inacessíveis para boa parte da população.

Para muito além de lembrar daquelas frases típicas de mãe: “Mas você não é todo mundo”. É normal, desejável e saudável inclusive, buscar grupos e espaços nos quais seja possível sentir uma identificação, nos sintamos confortáveis de vivenciar e partilhar nossas experiências. Porém quando uma pessoa bissexual busca se encaixar num desses espaços quase invariavelmente vai acabar tendo de abrir mão de um pouco de si.

A comunidade LGBT nos cobra que enalteçamos a vivência com pessoas do mesmo sexo como única com potencial de exposição à violência, e como consequência como a única que precisa de afirmação e que reneguemos às nossas outras experiências ou as tratemos com menos importância para que possamos fazer parte de seus espaços. A comunidade hétero, aquela que ocupa os espaços de poder, nos reserva uma gama bastante ampla de violências, em determinados contextos a simples menção de sentimento, experiência ou pensamento sobre a possibilidade de estar com alguém de outro gênero já pode nos expor desde piadinhas infames até nos condenar à morte.

De qualquer forma em determinada situação, ou na verdade em muitas delas, acabamos cedendo um pouco à um lado ou a outro. Nós calamos, mudamos nossa forma de nos expressar, e em muitos momentos nos tornamos nós mesmos um destes reguladores. E independente dos nossos esforços sempre vai ter alguém regulando e medindo nossa vivência segundo as regras de algum padrão social vigente, e nós saímos sempre como culpados de não nos adequarmos o suficiente.

E assim ficamos nós entrando e saindo do armário (cada hora com uma roupa diferente) várias e várias vezes, enquanto somos chamados de desonestos por não atingir a expectativa alheia ou por em algum momento temos uma atitude que condiz com o estereótipo que nos impõe.

Queria terminar esse texto dando uma solução para tudo isso, mas infelizmente só posso dizer que realmente faz parte das nossas vivências essas cobranças, essas dúvidas e se abalar por elas.

O máximo que posso dizer é: se organizem em coletivos bissexuais ou que verdadeiramente abracem nossas pautas, conversem sobre suas experiências, busquem sua própria forma de vivênciar a bissexualidade e a monodissidência (vivência que destoa da prática hetero e homossexual). Isso não vai te impedir de sofrer violência, mas pode de dar mais armas para lutar contra elas.

De pouco em pouco vamos resistindo, respondendo pessoalmente, em grupo e até institucionalmente à algumas violências. Criamos ou subvertemos alguns símbolos (unicórnios e bisões <3), reivindicamos e buscamos mais representação e reconhecimento da nossa sexualidade em diversos espaços, trabalhamos enquanto ativistas para combater preconceitos e a invisibilização, e nas horas vagas até nos preocupamos com coisas corriqueiras como quando os boletos vão vencer ou se os crushs vão dar bola pra gente.

E lembrem-se: Nós não somos metade de nada, somos bissexuais por inteiro independente da forma que vivenciamos essa identidade.

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual #visibilidadeBi

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